Qamar
Parte de um capítulo de um livro que venho escrevendo, sem previsão de conclusão ou lançamento - "Trata-se de um faroeste sobre o 3° mundo"
Qamar acordou no fim da madrugada, como vinha fazendo há quase vinte anos, desde seu casamento com Joaquim Heleno. Sua vela do anjo-da-guarda era a única luz do quarto, mas era o suficiente para que ela conseguisse encontrar os fósforos para acender o lampião. Foi até o pequeno altar, que ficava no canto, encheu um copo com água, fez suas rezas a São João Damasceno, seu protetor, bebeu a água, ficou uns instantes com os olhos fechados, meditando sobre sua vida e seu dia que começava ali. Olhou o calendário pendurado num canto: era dia do aniversário de Eufrates. Completava quinze anos, e agora poderia finalmente se dedicar apenas ao trabalho na terra, como era de determinação de seu pai. Não que no último ano, e no período até ali (maio) estivesse tão frequente no grupo escolar. Qualquer desculpa era motivo para ele faltar às aulas: levar os cavalos ao ferreiro; quebrar o milho; sangrar um porco; irrigar a terra (em dias de sol intenso). Seu filho não era um vadio, como algumas crianças, da cidade principalmente, que faltavam ao grupo para ir à Rua da Lama, ou pra caçar passarinho, pescar, nadar... Não, graças ao bom Deus, seu motivo era mais nobre, queria trabalhar na fazenda, e nada mais. Era um bom menino, fiel aos seus pais, seus irmãos, um pouco destemperado, porém, de coração bom. Que Deus olhasse por ele nesse dia, amém. Fez o sinal da cruz, olhou Joaquim, que acabava de abrir os olhos. Sorriu a mulher e já veio lhe abraçar com intenções carnais. Qamar sorriu, o beijou, mas refutou suas mãos vívidas e seu corpo ainda quente da manta. Logo as crianças acordavam, batiam na porta. Ele lhe deu outro beijo, enquanto apertava seus quadris, e foi fazer sua higiene.
Era um homem de feitura rígida, apesar de ser muito afetuoso com a esposa, os filhos, seu amigo Cirineu. Um homem traumatizado por um passado que fora rígido com sua família, e que se viu perto da mais completa miséria material e que, no entanto, conseguia ser super protetor e afetuoso com sua família, respeitando as peculiaridades de cada um de seus filhos e as vontades de sua mulher; mal olhava no rosto das pessoas da cidade, não tratava as pessoas de cor com desdém e descaso dos outros, não forçava sua esposa a fazer coisas que ela não queria, menosprezava qualquer comentário sobre sua pessoa e não falava sobre a vida dos outros; era indiferente aos sinos das igrejas, as festas paroquiais, ao dinheiro, não via problema em chorar quando estava triste, e era capaz de interromper um dia de colheita apenas para ficar brincando com Ussuri e Morbeia, os caçulas. Era apaixonada por ele, e pensava que talvez aquilo fosse uma exceção na vila, porque ouvia suas amigas da cidade falando sobre seus maridos violentos, ou que forçavam ela nos atos conjugais, ou que batiam nos filhos com vara seca quando eles faziam algo que lhes desagradava... Ficava em prantos com elas, sem entender porque Joaquim era daquele jeito, mas nunca deixava de agradecer a Deus por isso. claro que ela sabia sobre o seu passado, como seu pai, que ela nunca conheceu, fora enganado pela Família Neves, como se perdera em jogos, dívidas e bebidas, como apenas a família de Cirineu fora capaz de ficar ao lado dele. Sentia que isso ligava ela a ele, para além do afeto, pela compaixão.
Antes de chegar ao Brasil, viu três de seus quatro irmãos mais velhos sendo presos ou mortos pelos turcos, ora por brigar contra a fome e o abuso fiscal, ora por defenderem sua fé. Foi depois do espancamento de Latif, que seus pais decidiram que era melhor imigrar; já não aguentavam mais o sofrimento de viver ali naquela vila com o mesmo nome da menina; sua mãe estava começando a perder o juízo, depois que viu o filho simplesmente não acordar, após quase vinte dias padecendo em uma cama; Jabal não queria imaginar o que aconteceria com Qamar e sua irmã Assalom, se continuassem ali. Vendeu tudo o que tinha, e um dia os quatro partiram da vila carregando apenas dois baús com tudo o que tinham dentro. No Brasil, até que chegassem a Itininga, a menina e sua irmã viram sua vida melhorar um pouco; para quem mal tinha comida, e vivia com medo de ser sequestrada por soldados, como vira com tantas outras crianças, ter roupas de estopa e refeições de carne seca com farinha era um luxo. Logo, seu pai conseguira se estabelecer naquele vilarejo entre Campinas e Sorocaba; abriu sua venda, que se não dava lucro, ao menos pagava o aluguel e as refeições das filhas. Porém, o grito de pessoas sendo espancadas nunca escapou de sua mente; muitas vezes, a menina acordava de madrugada com o corpo úmido de urina e suor, berrando o nome de seus irmãos; o cheio de palha carbonizada remetia Qamar a muita desolação, e ela sequer conseguia ficar muito tempo na cozinha da casa, diante da presença de labaredas do fogão; a presença de soldados deixava ela ofegante, e mais de uma vez tivera desmaios na praça da cidade. “Sua filha é maluca”, seu Jabal, diziam alguns; “Ela está endemoniada”, diziam outros. O médico da época até indicou que a menina fizesse uso de tintura de láudano, porém, seu pai conhecia o ópio por experiência própria. Foi dona Felipa, um dia, que pediu para o libanês levar a menina até o barracão. Ali sua vida mudou, de várias formas.

