“O major desculpe o questionamento”, sibilou Cirineu de seu canto, já fazendo menção de ir embora “o major veja que sou homem como esses que aqui estão: lidamos com a terra todo o dia, não queremos questionar o major, mas entender os dois lados. O Dr. Renato falou de facilitar a entrada de dinheiro na conta dos fazendeiros, pra eles não dependerem tanto do governo, disse que os fazendeiros todos iam ser donos de terra, um quinhão para cada alma”, terminou sua cachaça e tragou o final do pito, “Por que isso é ruim, Major?”
“Ah, o empregado de Joaquim Heleno…”, o major sorriu com desdém “O senhor é um preto, vamos dizer, diferente dos seres da sua raça, não é verdade? É um sábio no dom do bem-dizer”. Olhou Cirineu de cima a abaixo, fechou os olhos e pôs as mãos nas têmporas, como se estivesse meditando sobre algo bem triste de se lidar com. “Sinto-me compelido a redarguir em uma linguagem menos nobre, tenha vista estar, ser de tão superior faculdade estar em uma herdade tão lamuriosa”.
“O major queira desculpar o que vou dizer, mas apenas estou falando que o que queremos entender, é o que há de ruim no outro lado. O major não precisa de se preocupar com as palavras bonitas. Porque o senhor major veja, o Dr. Renato não se preocupa, e esse povo tudo entende o que ele fala”.
O major riu, com ironia, embora seu rosto tenha ficado completamente vermelho; apertou os dedos, respirou profundamente.
“Pois está muito direito, aquilo que o amigo fala. Palavras bonitas escondem a verdade bela - ou feia. E no caso do Dr. Renato, só vejo uma carantonha. Deixar que a terra passe para os trabalhadores sem conhecimento ou pulso é o mesmo que pedir que uma juriti conduza um carro-de-boi e seus patrões provam isso. As terras da família Souza Teles não tiveram um bom manejo de suas capacidades produtivas, você não concorda? Tenho enorme admiração pela força e história de seu patrão, mas o senhor veja, era preciso que o honrado José Heleno estivesse alinhado ao nosso governo, para fazer um melhor entendimento de como trabalhar a terra. Mas não vamos remoer o passado, amigo Cirineu.” E sorriu como um bicho-preguiça.
“O Major me desculpe, penso que cada um tem sua história, remoer o passado não muda nada. Perguntei, o Major me desculpe, como que as ideias do Dr. Renato, de dar dinheiro pra nós, podem ser ruins? Deixar o patrão crescer da forma como parece melhor para ele, deixar ele fazer negócios como bem entender, não ficar pagando tanto imposto para a capital...”
“O senhor está certo. Não vamos falar do que já passou. Até por que, ninguém tem culpa pelos erros dos pais e do avô, mas veja que o pequeno trabalhador de terra, e aqui falo com todos vocês, meus amigos lavradores, vocês, como o amigo Joaquim Heleno não entendem que a política e o mundo são mais difíceis do que a vã compreensão do plantar e do colher,” Cirineu pôs a mão sobre o ombro de Eufrates, de forma sutil, e fechou o rosto, enquanto o Major tragava seu charuto, olhando os pés, “essas ideias não são ruins, não são mesmo, mas pra cuidar do dinheiro é preciso fazer as ideias virarem práticas, é preciso pensar uma visão sobre todo o mundo, para além dos limites de Campinas ou Sorocaba; explorar a Amazônia, e enriquecer com as matas... Alguém sabe onde é a Amazônia, uma floresta terrível que tem animais e índios que poderiam lhes matar antes que vocês conseguissem olhar os próprios pés? As práticas surgem de saber ler os livros e jornais que chegam da capital, de direcionar nossas riquezas para a capital, fazer nossas terras alimentarem o mundo e entender como usar esse dinheiro, pra não ficarmos atrás do que é feito no resto do planeta. Eis a grande questão”.
Sirineu olhou para o céu e respondeu “O Major me desculpe, a conversa está boa, mas o poete vem surgindo. O Major veja, eu não sei ler, mas se a câmara deixasse eu guardar uns patacos a mais em casa, na certa que a vida ia melhorar”, dizendo isso, deu as costas ao Major e fez um sinal para Perez marcar o valor devido.
Sirineu e Eufrates subiram na carroça, mas uma voz atrás deles os chamou. “Calma aí meu amigo”, falava o Dr. Heitor Lages, vindo junto de um funcionário do correio, “Não vá ainda, antes de ouvir a verdade sobre meu amigo Renato Tavares!”. O doutor apeou, seguido por seu amigo, e já entrou falando alto.
“Major Neves, que bons ventos o trazem aqui?”

