“Ah, Perez, meu amigo, é uma bela imagem de Santa...” exclamou, “Santa Bárbara, justiceira”, respondeu o dono do botequim “a santa que entrega o que cada um merece”.
“E o senhor, tem recebido o que tem merecido?” Casemiro Neves deu uma risada contida e olhou em volta, como que pedindo aprovação dos outros, mas encontrou apenas rostos fechados de trabalhadores bêbados, que esperavam apenas poderem continuar seu momento de finalizar o dia, no dominó, no carteado, ou na conversa fiada. O Major Neves voltou seu olhar ao Perez, que, inabalável, agora limpava alguns copos com um pano qualquer.
“Estou em dívida com ela”, respondeu, colocando os copos na prateleira atrás de si; de uma gaveta, puxou a caixa de charutos e acendeu um novo. “Em dia com as leis da cidade, mas sempre devendo a Deus”, concluiu, em uma nuvem de fumaça direcionada ao silêncio geral, sem olhar para ninguém.
“Olhe que Ele cobra depois hein, Seu Perez”, respondeu o major, em tom de troça, buscando o olhar de alguém para amparar suas palavras. Apenas Juvenal exibia um sorriso canino, que fazia ele parecer um aracambé pronto para pular em uma cotia.
“Somos bons amigos. Se ele me levar pra baixo, pelo menos não sentirei frio”. Perez falou enquanto olhava um nó na madeira do balcão; então levantou os olhos até o fundo da alma do major, tragou o charuto e soltou a fumaça, com o rosto sem qualquer emoção. Alguns ocupantes da bodega riram, junto com o Major, embora esse tenha recuado a cabeça de forma muito curta, como se a fumaça tivesse sido a própria mão de Santa Barbara apontando um dedo acusador para o dono da cidade. O major levantou o copo, e Perez encheu com outra dose.
“Vocês são mesmo muito espirituosos, merecem mais do que apenas viver para comer. Essa cidade precisa estar alinhada com o século 20, para que nosso povo tão cheio de vida possa crescer também!”. Juvenal olhou para o violonista, e fungou; “música”. Mas a dupla continuava em silêncio. “Sim, meus amigos, não se preocupem, estava gostando da toada! Não quero que vocês pensem qualquer coisa; o salão do Perez é ou não é, um lugar de alegria?” Silêncio. “Meu bom amigo” – e empilhou mais algumas moedas sobre o balcão “Me traga uma garrafa fechada. Abra ela e divida com todas essa gente aqui do seu bar!”, e girou as mãos como que apontando os frequentadores. Alguns homens fizeram exclamações de alegria, respondendo ao gesto do major com um brinde. A dupla começou a tocar um corta-jaca tímido, um dos bêbados fazendo a percussão na bancada.
“Mas afinal”, gritou um menino que estava no fundo, já com o rosto bem avermelhado “Quem é que o senhor quer que nós votemos?”. Os músicos diminuíram a música, sem interrompe-la e todos os olhos se voltaram a esse, que era um jovem caixeiro de qualquer loja. O major se aproximou do homem e o mediu de cima abaixo, Juvenal às suas costas com a mão na cintura.
“Você é o menino que trabalha para o turco Nasser, não é?”. O jovem levantou o copo como num brinde; algumas pessoas riram, atraindo o olhar de Juvenal, mas o major levantou o braço, riu também “Ora, assim vocês fazem parecer que eu mando na cidade, rapazes!” Olhou em volta, os olhos esbugalhados, igual jararaca, exibiu os dentes, bradou com a voz e as mãos: “Não vim aqui falar de política, vim conhecer a realidade do povo que tanto adoro! Essa cidade foi feita com a força de minha família, tenho o dever cívico de olhar por ela, vocês não acham?”. Só o corta-jaca se ouvia ali. “Teremos uma eleição, de fato; tenho meu candidato, a quem deposito a mais profunda crença, é verdade. Mas aqui, nesse tã boníssismo recinto, não é lugar pra isso, não é mesmo?” A dupla começou um maxixe. “Ah! Um minuto! Essa composição é estupenda!” fechou os olhos e vacilou um bailadinho sacana, que não convenceu a ninguém. Voltou a mirar seu público. “Não falemos de política; exaltemos o magnânimo das artes no mistério do ser!” Nenhuma reação. “Vejam o que direi: Vocês são pessoas decentes e têm liberdade e dever de escolher o candidato que lhes aprouver mais! E o que esse jovem falou... É uma provocação, sim, é uma instigação, mas não me ofende, ao contrário, me inspira” O menino já estava convenientemente arrastado para longe do major. “Menino, gostei de você, sua pergunta mostra a maior qualidade do homem, a preocupação com o futuro!” O jovem que já parecia muito longe de seu estado de normalidade riu alto, e um mais velho jogou um punhado de água em seu rosto. “Juvenal, amanhã vamos comprar uns metros de fazenda com esse garoto, sim? Para se atinar às brumas do porvir, é mister a destempera, ante os sofismos vazios de consistência” Juvenal balançou a cabeça, como se o major falasse numa língua desconhecida; os bêbados observavam o major como quem via um circo russo de curiosidades “Engendra-se os dias do vindouro pelas mais profusas elucubrações. A escolha de um mandatário é um modo de no ali se chegar. E isso se faz pelas eleições; muito que bem, meus confrades...” Ninguém verdadeiramente estava prestando atenção ao Major, que entendia que a política se fazia com palavras difíceis, e retóricas lógicas cheias de ires-e-vires, que funcionavam muito bem na Capital Federal, mas ali? Ele falava para quem tivesse ouvidos para ouvir, sendo os próprios, principalmente. No entanto, continuou: “Quero apenas falar de meu bom confrade, bastião de mais finas qualidades cívicas e morais, diante das pilastras basilares de nosso meio, o capitão Góes, que se desdobra com sabedoria e temperança dos reis de Jerusalém, para se acercar das finanças municipais. Se o veem apenas como usurário de nossas rendas, o veem na parcialidade de suas capacidades mentais. O exímio e justíssimo capitão Góes está instrumentalizado pela sabedoria da manutenção urbana!”.
Seguiu-se um silêncio geral, e apenas Juvenal ria com todos os dentes amarelos a mostra. A música era um ruído ao fundo, como se aquelas palavras de difícil compreensão fossem soldados com arcabuzes prontos a disparar contra quem quer que fosse. “O Major fala umas palavras cheias de sons, que nós, que estamos ali na lida do barro, dos bichos, do fogo, o major queira me desculpar, é um som bonito, mas que não chega a fazer imagem nas nossas cabeças”, disse um dos bêbados, “eu falo por mim, senhor major, o capitão Góes é homem decente, com a graça de Deus, que nossa cidade não tem os miseres que vemos por aí, só que ele é homem decente igual o Dr. Renato da defensoria municipal; ele não fala umas coisas assim, tão cheia de letra, quanto o major, talvez até devesse falar, quem fala tão bem, mostra, como diz o padre, erudição e sabedoria, mas fala de coisas que a gente vê todo o dia e entende que ele também quer ajudar o povo, o major compreende? Daí que chegamos nessa, como se diz em Sorocaba, ‘sinuca de bico’”. Juvenal olhou e fungou para onde vinha a fala. O major olhou também sorrindo. Em sua cabeça, começava a se formar uma leve tempestade, que oscilava entre o aborrecimento pela menção a seu opositor e o enfastio pelo que ele entendia como limitação intelectual daquela gente.
“Ah, aquele idealista, romântico… aquele pândego, que sonha com uma câmara menos intervencionista. Ele domina o dom da retórica, ele fala vocábulos destituídos de profundidade e significância, apenas por viver em profundo onirismo. Veja, amigos, não o tenho em maus meandros, contudo, sinto que seus pés o conduzem até o por-vir de muitas eras no ademais da nossa”. Olhou a sua volta e viu que vários homens já desviam o olhar, distratiam-se sussurrando entre si, direcionando-lhe uma falsa atenção. “Em Português decente” retomou ele, com força, “sigo que suas ideias são preambulos de sonhos de um país rico, o Brasil como nosso amado Pedro I teria sonhado. Gosto dele, gosto que ele excogite ao longe. Porém, receio que o faça mais longe do que nossas vistas possam alcançar. Alguns dos senhores, infelizmente, não entendem que é preciso ter um republicano para cuidar de nossa cidade, alguém que entende como nossa pequena, mas encantadora Itininga pode se encaixar nessa obra maravilhosamente única que é o Brasil. Os liberais pensam que estamos em Paris, em Londres, vão demandar um esforço hercúleo e um trabalho humano que nossa pólis, infelizmente, não poderia atinar, e por culpa de quem, os senhores muito dignificantemente podem me questionar e se o fazem, é sinal de profunda sapiência, vocês vejam, a sabedoria não é algo que se aporta apenas nas escolas, se aprende naquela que é a mais linda e poderosa de todas as instituições de ensino, a vida: a quem podemos elencar o dolo de não sermos uma cidade tão grandiosa quanto nossa prima do norte, Sorocaba ou nossa prima do sul, Campinas? Desses que conjecturam o Brasil como um monolito de feras, dotada de um cérebro bestial a direcionar as cognições de nossas economias, nosso planos administrativos, nossa logística política... Fomo vilipendiados por políticos que traíram os primeiros donos da terra, aqueles que chegaram em caravelas, sob a fome e as intempéries da natureza e, munidos de poucas ferramentas transformaram as selvas em civilizações! Nosso povo ainda precisa de um prócer de vitalidade divinizada, que tenha a tradição em sua mente, que assuma a manudução de nossa grei; um sebastianista que nos conduza à eleuteria; alguém que olhe nossa gleba e continue com o tentame exordial de nossos pais e avós”.
Terminou seu discurso com orgulho de si mesmo, e alegria por ter conseguido pensar palavras que eram tão pouco usuais, mesmo nos livros mais difíceis que por ventura lera uma dia, e olhou à sua volta como se estivesse na câmara do Rio e não em uma simples bodega de chão de barro, cercado de pessoas que mal haviam aprendido a escrever o próprio nome. Ninguém lhe dirigia a palavra, pois temiam serem confrontados com aquele palavreado todo, que terminaria com a conclusão de serem todos estúpidos e atrasados. O major já fizera dessas coisas antes. Responder seria pior, ele agiria de forma a provocar a ira. Cristão nenhum aguentaria ouvir tanto disparate ali sentado; riqueza não faz caráter, mas o major sabia como humilhar, fazer o sujeito ter vergonha de ser pobre, de trabalhar com bicho, de nunca ter conseguido ir muito pra frente na escola, e quando alguém ouvia isso com a bagaceira subida à cabeça… Boa coisa não vinha daí, e Juvenal, com aquela fuça de ariranha ali do lado nem deixava a coisa se desenrolar tanto; metia a mão na cara do sujeito, que já caia com os dentes faltando, e se esse levantasse do chão, encontrava o cano do colt 38 entre os olhos. Quando o major Neves falava, era preciso, como se diz, pisar em ovos, porque o que o major gostava de fato era exercer sua força - sua e de sua gente - naquela população, apenas para mostrar que ali existiam leis bem marcadas, doido era quem tentasse mudar essas, sem acordar com a família Neves. Assim, esse silêncio seguiu mais uns bons minutos, quando apenas o som das cordas se ouvia.

