Ele disse, agora é hora de você assumir meu lugar. Não lugar de homem da casa, mas o lugar de segundo homem da casa, o lugar de pessoa que faz as coisas quando ele não está. As coisas do trabalho e do barracão. As do barracão, quem ajudava a vó era ele, quem vai ajudar ele, agora, sou eu, é isso que ele quis dizer, de assumir lugar né? Quer dizer, o tio Amaro ainda vai ser o ajudante do pai, nos batuques. Ainda vai ser a pessoa que, se ele falar, eu tenho que obedecer, mas um dia, Deus permita demore, o pai e o tio também vão esticar as canelas, e aí, quem vai precisar assumir a frente sou eu. E eu vou fazer isso, é claro, é o nosso trabalho com os espíritos, com as almas, a vó me explicou, a gente trabalha pra fazer as pessoas sofrer um pouco menos e aí cada pessoa sofrendo menos, logo, no mundo ninguém mais sente dor. Só que antes tem os aprendizados.
As folhas, as ervas, as árvores. As comidas. Os desenhos que a gente faz no chão. As músicas em língua antiga. As danças. É tanta coisa que acho que nunca vou conseguir. Eu vejo o pai trabalhando, ele sempre parece saber o que precisa fazer, qual erva, qual planta, qual banho. Ele não demora nada pra dizer. É igual a vó. Chegava alguém: dona Felipa, tudo bem?, sua benção; tô com uma dor no olho, faço o quê? Uma dor no joelho... Ela sabia de tudo. Sabia até o que não fazer, e isso é importante, ela sempre disse, não adianta muita coisa saber como dura, se você não sabe o que deixa doente. Não existe vida sem morte, e pra saber como não morrer, é preciso conhecer o que tira a vida. Até porque, ela falou uma vez, rindo, não é só a gente de faz feitiço. Se não tiver quem quebre a demanda, a gente volta pra escravidão. Era isso que ela me dizia. Que responsabilidade a senhora me deixou... Mas que bom que foi na sua família que eu nasci: falta tanta coisa pra aprender, mas quando eu vejo o pai, sei que a senhora acertou, e ele aprendeu tudo direito, e é a pessoa mais decente (depois da senhora) que eu conheço. Esse é o seu legado não é vó? Isso é a nossa cruz, honrar os seus passos. Espero que eu consiga ser metade do que a senhora foi, porque por enquanto eu sinto que não sou nem meia metade. Mas é isso vó: ver o pai e aprender com seus passos. Ver o que vem pela frente, pra entender o que é preciso pra ajudar o povo.
Só não me peça pra perdoar a família Neves! Isso eu não faço não.

